A dor de ouvido quase sempre chega no pior momento. No meio da noite, quando a criança acorda chorando e leva a mão na orelha. Ou naquele fim de resfriado em que você achava que já estava melhorando e, do nada, começa a latejar por dentro. No inverno isso acontece muito mais, e não é impressão sua. A otite média aguda, a inflamação por trás da maioria dessas dores, atinge cerca de 80% das crianças pelo menos uma vez antes dos três anos, com pico entre os seis meses e os dois anos, segundo revisão publicada na Revista da Associação Médica Brasileira. E o gatilho mais comum é justamente o que mais circula nesta época do ano: o resfriado.
Por que o inverno faz o ouvido doer
O ouvido raramente adoece sozinho. Na maioria das vezes a dor começa alguns dias depois de uma gripe, um resfriado ou uma crise de rinite. O motivo está numa estrutura pequena chamada tuba auditiva, um canal que liga a parte de trás do nariz à orelha média e serve para arejar e drenar essa região.
Quando a mucosa do nariz incha por causa da infecção, esse canal entope. A secreção que deveria escoar fica presa atrás do tímpano, vira um caldo parado, e nesse ambiente abafado vírus e bactérias se multiplicam. O resultado é aquela pressão que pulsa e tira o sono. Por isso o inverno é temporada de otite: quanto mais resfriado a pessoa pega, maior a chance de o ouvido entrar na conta. Quem já passou por um episódio de gripe no inverno ou de sinusite sabe como o nariz entupido bagunça tudo em volta. O ouvido faz parte desse mesmo sistema.
Otite média ou otite externa? A dor não é igual
Existem dois tipos de otite que se confundem no dia a dia, e saber diferenciar ajuda a entender o que está acontecendo. A otite média é a que fica atrás do tímpano, ligada ao resfriado. Costuma doer por dentro, dá aquela sensação de ouvido tampado, às vezes vem com febre e com a audição abafada. É a mais comum em bebês e crianças pequenas.
Já a otite externa acontece no canal que vai da orelha até o tímpano, a parte de fora. É o famoso “ouvido de nadador”. Aparece depois que entra água na piscina, no mar ou no banho, ou depois de alguém cutucar o ouvido com cotonete e machucar a pele lá dentro. A Sociedade Brasileira de Pediatria explica que, ao remover em excesso a cera que protege o canal, o ouvido fica mais exposto à infecção.
Um sinal prático diferencia bem as duas: na otite externa, mexer na orelha dói. Puxar a “abinha” da frente ou balançar o pavilhão faz a dor disparar. Na otite média isso costuma não incomodar tanto, porque o problema está mais fundo. Não é um teste definitivo, e só o exame do ouvido com o aparelho certo confirma o diagnóstico, mas é uma pista que ajuda em casa.
Por que criança sofre mais (e adulto também pega)
Se parece que o ouvido do seu filho vive doendo, existe explicação anatômica. Nas crianças pequenas, a tuba auditiva é mais curta, mais horizontal e mais mole, o que facilita a secreção do nariz voltar para dentro da orelha e dificulta a ventilação. Some a isso um sistema imune ainda em formação e a rotina da escolinha, onde um resfriado passa para o outro sem parar. A própria Sociedade Brasileira de Pediatria aponta essas três razões como as principais.
Isso não quer dizer que adulto está livre. A otite média fica bem mais rara com a idade, mas a otite externa não escolhe faixa etária: quem tem o hábito de limpar o ouvido com cotonete ou passa muito tempo com o canal úmido é candidato em qualquer idade.
O que fazer em casa (e o que nunca fazer)
A primeira medida é aliviar a dor. Um analgésico ou antitérmico comum, como paracetamol ou dipirona na dose orientada para o peso e a idade, resolve boa parte do desconforto nas primeiras horas. Uma compressa morna sobre a orelha costuma ajudar. Dormir com a cabeça um pouco mais elevada alivia a pressão, e manter o nariz limpo com soro fisiológico é parte do tratamento, já que o problema começou lá.
Agora, a parte que mais gente erra. Não coloque nada dentro do ouvido por conta própria. Nada de pingar alho, óleo morno, azeite, água oxigenada ou qualquer receita caseira no canal. Se o tímpano estiver perfurado, esses líquidos entram onde não deveriam e pioram tudo. O cotonete é o vilão clássico: em vez de limpar, ele empurra a cera para o fundo e arranha a pele delicada do canal, abrindo porta para a otite externa. E não vale começar antibiótico que sobrou de outra vez. Ouvido inflamado não é sempre caso de antibiótico, como você vai ver a seguir.
Antibiótico nem sempre entra na história
Aqui está a informação que costuma surpreender. Na maioria dos casos de otite média, principalmente quando afeta um lado só e sem saída de secreção, o antibiótico não é necessário. A Sociedade Brasileira de Pediatria lembra que, nos estudos, cerca de 80% das crianças que receberam apenas placebo melhoraram sozinhas. Por isso muitos médicos adotam a conduta de esperar 48 horas com analgésico e só entrar com o antibiótico se a criança continuar mal.
Existem exceções em que o remédio é indicado logo de cara, como bebês abaixo de seis meses, dor forte com febre alta, os dois ouvidos afetados em crianças pequenas ou saída de pus. Mas a decisão é do profissional que examinou o ouvido, não da farmácia nem do palpite de quem já passou por isso. É a mesma lógica de quando a gente tenta entender se uma dor de garganta é virose ou precisa de antibiótico: tratar tudo com antibiótico não acelera a cura e ainda alimenta a resistência bacteriana, um tema que vale a pena entender melhor no texto sobre quando tomar antibióticos.
Quando procurar um médico
Nem toda dor de ouvido precisa de pronto-socorro, mas alguns sinais pedem avaliação sem enrolar:
- Dor forte que não melhora em 48 horas ou que vai piorando;
- Febre alta junto com a dor no ouvido;
- Saída de secreção, pus ou sangue pelo ouvido;
- Bebês com menos de seis meses ou crianças muito irritadas, sem sossego;
- Inchaço, vermelhidão ou dor no osso atrás da orelha, com a orelha parecendo mais para fora que a outra;
- Tontura intensa ou queda de audição que não volta ao normal.
O último ponto merece atenção. Vermelhidão e inchaço atrás da orelha podem indicar mastoidite, uma complicação séria da otite que precisa de atendimento rápido. É raro, mas é o tipo de coisa que não dá para deixar para depois.
Dá para diminuir as chances
Boa parte da prevenção passa por cuidar bem dos resfriados, que são o ponto de partida. Lavar o nariz com soro nas crises, manter a vacinação em dia e não fumar perto das crianças faz diferença real. A vacina pneumocócica oferecida pelo SUS, aplicada em três doses no primeiro ano de vida, reduz o número de episódios de otite, de visitas ao médico e até de cirurgias de ouvido, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Limitar o uso da chupeta e evitar ambientes com fumaça de cigarro completam a lista.
No fim das contas, ouvido que dói raramente é azar solto de inverno. É quase sempre o eco de um resfriado que passou pelo nariz e ficou preso ali atrás. Cuidar do nariz, no frio, é cuidar do ouvido também.
Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Otite Média
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Otite Externa (ouvido de nadador)
- Revista da Associação Médica Brasileira — Diagnóstico da otite média aguda na infância
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou profissional de saúde. Se você tem dúvidas sobre sua saúde, consulte um especialista.
Caio Correa — Pesquiso e escrevo sobre saúde do dia a dia desde que uma pedra no rim me obrigou a entender o próprio corpo. Não sou médico: todo artigo aqui parte de fontes oficiais. Conheça o Saúde Cotidiana.