A coqueluche anda longe de ser aquela doença de cartilha antiga que a gente achava vencida. Em 2024, o Brasil confirmou 7.440 casos, o maior número em uma década, segundo a Situação Epidemiológica do Ministério da Saúde. Para ter ideia do salto, no ano anterior tinham sido só 216. E o que assusta não é o nome antigo: é que ela quase sempre começa parecendo um resfriado bobo e só mostra a cara quando a tosse já virou um problema sério.
Se você anda com uma tosse que não passa, ou tem bebê em casa, vale entender como essa doença funciona. Ela tem jeito de prevenir, mas também tem um grupo que paga caro quando ela circula.
Por que uma doença “de antigamente” voltou a crescer
A coqueluche é causada por uma bactéria, a Bordetella pertussis, e nunca desapareceu de fato. O que acontece é que ela anda em ciclos: a cada três a cinco anos costuma dar uma subida no número de casos, como explica a página do Ministério da Saúde sobre a doença. Junte a esse ciclo natural a queda na cobertura vacinal dos últimos anos e a volta da vida cheia de contato depois da pandemia, e você tem o cenário perfeito para a bactéria voltar a circular com força.
Não é um problema só do Brasil. A Fiocruz, pelo painel Observa Infância, registrou aumento de coqueluche entre crianças menores de 5 anos, justamente a faixa que mais sofre com a doença. Em 2025 o número recuou em relação ao pico de 2024, mas seguiu sendo um dos mais altos dos últimos anos. Ou seja: não é hora de baixar a guarda.
A “tosse comprida” e por que ela engana no começo
O apelido popular da coqueluche, “tosse comprida”, diz muito. A doença evolui em três fases, e é a passagem de uma para a outra que costuma pegar as pessoas de surpresa.
Na fase inicial, chamada catarral, o quadro é a cara de um resfriado comum: febre baixa, mal-estar, coriza e uma tosse seca que ninguém leva muito a sério. Isso dura mais ou menos uma a duas semanas, e é aí que a pessoa transmite mais. Quase ninguém desconfia de coqueluche nesse ponto.
Depois vem a fase paroxística, que é onde o nome faz sentido. A tosse deixa de ser um pigarro e vira crise: acessos súbitos, um atrás do outro, sem tempo de respirar direito no meio. No fim de uma dessas crises, principalmente em crianças, pode sair aquele som agudo ao puxar o ar, o famoso “guincho”. Não é raro a pessoa ficar com o rosto vermelho, às vezes arroxeado, e vomitar depois de tanto tossir. Essa fase, segundo o Ministério da Saúde, pode durar de duas a seis semanas, o que explica bem o apelido.
Por último, a fase de convalescença, quando a tosse vai perdendo força aos poucos. Mesmo assim ela pode se arrastar por mais algumas semanas, ou até uns três meses, e voltar a apertar se a pessoa pegar outra virose no meio do caminho.
Nos bebês, o risco é de outra ordem
Aqui está o ponto que faz a coqueluche merecer atenção de verdade. Em adulto vacinado, ela costuma ser um transtorno cansativo. Em bebê pequeno, pode ser fatal.
Os menores de 1 ano, especialmente os de até 6 meses, são os que desenvolvem as formas mais graves. Historicamente, esse grupo concentra a maioria dos casos e quase todos os óbitos por coqueluche no país, como mostram os dados do Ministério da Saúde. E o mais traiçoeiro é que, nessa idade, nem sempre aparece o guincho clássico. Às vezes o bebê tem episódios de apneia, em que simplesmente para de respirar por alguns segundos, fica roxinho e nem chega a tossir do jeito que a gente espera. Por isso qualquer suspeita em criança pequena vira caso de hospital, com internação e vigilância de perto.
Como diferenciar de um resfriado ou de outra virose
Não dá para bater o martelo em casa, e nem é essa a ideia. Mas alguns detalhes ajudam a acender o alerta. Um resfriado comum melhora em poucos dias e a tosse costuma ser mais branda. A coqueluche faz o contrário: começa manso e vai piorando, com a tosse virando crises que deixam a pessoa sem ar. Uma tosse que passa de duas semanas e vem em acessos fortes, com ou sem guincho, merece avaliação médica, ainda mais se tem bebê ou gestante no convívio.
O diagnóstico certeiro é feito pelo médico, que pode pedir exame de secreção do nariz ou um teste de laboratório para confirmar a bactéria. Vale lembrar que outras infecções respiratórias também causam tosse insistente, então a diferença entre uma dor de garganta que é virose ou pede antibiótico e um quadro de coqueluche nem sempre é óbvia sem essa avaliação.
Como se pega e por que o adulto entra na história
A transmissão é de pessoa para pessoa, pelas gotículas que saem quando alguém tosse, espirra ou até fala, conforme descreve o Ministério da Saúde. É bastante contagiosa, e o período em que a bactéria mais passa adiante é justamente aquele começo que parece resfriado.
E é aqui que mora um ponto que muita gente ignora: adolescentes e adultos podem ter coqueluche de forma branda, quase sem perceber, achando que é só uma tosse teimosa. Sem saber, viram fonte de contágio para o bebê da casa, que ainda não completou o esquema de vacinas e é quem tem mais a perder. Não é à toa que a estratégia de proteção não se limita à criança: protege-se quem está em volta dela também.
Vacina: quem deve tomar e quando
A vacinação é o principal meio de prevenção, e o SUS oferece as doses de graça. De forma resumida, a proteção se organiza assim:
- Bebês e crianças: a proteção começa ainda nos primeiros meses, com a vacina pentavalente, seguida de reforços ao longo da primeira infância. O calendário cobre até os 6 anos, 11 meses e 29 dias.
- Gestantes: devem tomar uma dose da vacina do tipo adulto (dTpa) a partir da 20ª semana, em toda gestação, mesmo que já tenham se vacinado antes. Isso passa anticorpos para o bebê e o protege nos primeiros meses, antes de ele poder se vacinar.
- Quem cuida de recém-nascidos: profissionais de saúde e outras pessoas do convívio próximo do bebê também entram na conta, para não levar a bactéria para dentro de casa.
Manter a caderneta em dia, dos pequenos e dos adultos, é o que sustenta essa barreira. Assim como acontece com a gripe no inverno, a estação fria e os ambientes fechados favorecem a circulação de doenças respiratórias, e a vacina é o que muda o jogo.
Quando procurar um médico
Procure atendimento sem enrolar se aparecer:
- Tosse em crises fortes que passa de duas semanas, com ou sem o guincho ao puxar o ar;
- Falta de ar, lábios ou rosto arroxeados durante os acessos de tosse;
- Em bebês: pausas na respiração (apneia), moleza, recusa para mamar ou qualquer tosse fora do comum;
- Vômitos frequentes logo depois de tossir;
- Contato recente com alguém diagnosticado com coqueluche, principalmente se há criança pequena ou gestante em casa.
O tratamento é feito com antibióticos prescritos pelo médico, e começar cedo faz diferença tanto para encurtar o quadro quanto para reduzir o risco de passar adiante. Nada de se automedicar: o uso correto de antibióticos tem regras que existem por um bom motivo.
A coqueluche voltou a crescer, mas não é um mistério sem solução. Reconhecer a tosse que não passa, manter a vacinação em dia e proteger quem está mais vulnerável já resolve a maior parte da história.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde — Coqueluche: sintomas, transmissão, tratamento e prevenção
- Ministério da Saúde — Coqueluche: Situação Epidemiológica
- Fiocruz / Agência Fiocruz de Notícias — Observa Infância aponta aumento de coqueluche em crianças menores de 5 anos
Caio Correa — Pesquiso e escrevo sobre saúde do dia a dia desde que uma pedra no rim me obrigou a entender o próprio corpo. Não sou médico: todo artigo aqui parte de fontes oficiais. Conheça o Saúde Cotidiana.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou profissional de saúde. Se você tem dúvidas sobre sua saúde, consulte um especialista.