Olho seco deixou de ser só aquele desconforto de fim de tarde na frente do computador. No inverno, quando a umidade do ar despenca, a ardência e a sensação de areia nos olhos ganham companhia nas salas de emergência. Durante os períodos de baixa umidade, a procura por atendimento oftalmológico na rede pública chega a subir 20%, segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal. E não é um problema de poucos: um estudo feito na cidade de São Paulo, publicado nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, encontrou queixa importante de olho seco em 24,4% dos adultos.
Se os seus olhos andam pinicando mais do que o normal nas últimas semanas, você não está imaginando coisa. O ar de julho está contra eles.
Por que o tempo seco castiga tanto os olhos
A lágrima que cobre o olho não é só água. Ela tem três camadas: uma de muco, que gruda o líquido na superfície; uma de água, que hidrata; e uma fina de gordura por cima, que segura tudo no lugar e evita a evaporação. Quando essa cobertura está inteira, o olho fica lubrificado sem que você perceba. Quando uma das camadas falha, começa o incômodo.
O ar seco ataca justamente a camada de água. Com a umidade relativa lá embaixo, a lágrima evapora mais rápido do que o olho consegue repor. É o mesmo princípio de uma roupa no varal: no dia úmido, demora a secar; no dia seco, seca num piscar. O Instituto Nacional de Meteorologia vem emitindo alertas de baixa umidade em boa parte do país neste inverno, com índices de 20% a 30% à tarde, bem abaixo dos 60% que a Organização Mundial da Saúde considera confortável.
Junte a isso ventilador ligado a noite inteira, ar-condicionado no trabalho e aquele vento gelado na rua, e o filme de lágrima praticamente não tem chance.
Os sinais de que é olho seco
O nome engana. Muita gente imagina que olho seco é o olho que não lacrimeja, e às vezes é o contrário. Os sintomas mais comuns são:
- Ardência ou sensação de queimação, principalmente no fim do dia
- Aquela impressão de que tem um cisco ou areia no olho
- Vermelhidão e olhos cansados depois de ler ou usar telas
- Visão que embaça e melhora quando você pisca
- Coceira e pálpebras que parecem pesadas
O detalhe curioso é o olho que lacrimeja demais. Parece contradição, mas faz sentido: quando a superfície resseca, o cérebro entende que algo está errado e manda uma enxurrada de lágrima de emergência. Só que essa lágrima reflexa é aguada, escorre pelo rosto e não repõe a camada de gordura que faltava. Ou seja, o olho chora e continua seco. Se você vive enxugando os olhos e mesmo assim sente ardência, olho seco é uma hipótese forte.
Quem tem mais chance de sofrer
Ninguém está imune num inverno seco, mas alguns grupos sentem mais. A partir dos 50 anos a produção natural de lágrima cai, e por isso o ressecamento é mais frequente nessa idade. Mulheres, sobretudo após a menopausa, também aparecem mais nas estatísticas por conta das mudanças hormonais.
O estilo de vida moderno entra pesado na conta. Quem passa horas em frente a telas pisca bem menos do que deveria, e cada piscada é o que espalha a lágrima nova sobre o olho. Usuários de lentes de contato, pessoas que trabalham o dia inteiro sob ar-condicionado e quem toma certos remédios como antidepressivos, anti-histamínicos e alguns para dormir também têm o terreno mais propício ao problema. Nesses casos o tempo seco não cria a doença sozinho, mas é a gota que faz transbordar.
O que ajuda de verdade no dia a dia
A boa notícia é que a maior parte dos casos melhora com medidas simples, sem nada de heroico. O primeiro passo é devolver umidade ao ambiente. Uma bacia de água no quarto, toalhas molhadas no varal interno ou um umidificador já mudam o jogo à noite, quando dormimos horas de olhos fechados num ar ressecado.
Se você trabalha com telas, vale conhecer a regra do 20-20-20: a cada 20 minutos, desvie o olhar para algo a uns 6 metros de distância por 20 segundos. Parece bobagem, mas força você a piscar e dá uma folga para o olho relubrificar. Posicionar o monitor um pouco abaixo da linha dos olhos ajuda também, porque a pálpebra cobre mais a superfície e a lágrima evapora menos.
Colírios lubrificantes, as chamadas lágrimas artificiais, são o alívio mais direto e podem ser usados ao longo do dia. Ainda assim, escolher no balcão da farmácia não é ideal: existem versões mais leves e outras mais viscosas, com ou sem conservantes, e o tipo certo depende do seu caso. Um oftalmologista indica o mais adequado e evita que você use por conta própria um colírio “para vermelhidão” que, a longo prazo, piora tudo. Fora isso, óculos de sol cortam o vento na rua, evitar apontar o ar-condicionado direto no rosto faz diferença, e beber água ao longo do dia mantém o corpo, e a lágrima, mais hidratados.
Olho seco não é conjuntivite
Como os dois deixam o olho vermelho, é fácil confundir. A diferença prática ajuda a não se assustar à toa. A conjuntivite costuma vir com secreção (aquela remela que gruda os cílios de manhã), pode coçar muito e, nas formas virais e bacterianas, é contagiosa. O olho seco não gruda nem passa de uma pessoa para outra; ele arde, dá sensação de areia e piora ao longo do dia e em ambientes secos. Se há pus, dor forte ou o problema surgiu de repente num olho só, a conversa é outra e pede avaliação.
Vale lembrar que o mesmo ar seco que ataca os olhos também resseca o nariz e a garganta. Não à toa, esta é a estação do sangramento no nariz, da pele seca e da sinusite. É o corpo inteiro reclamando da falta de água no ar.
Quando procurar um médico
Ardência ocasional que passa com um colírio lubrificante e uma noite de descanso raramente é motivo de alarme. Mas há sinais que pedem um oftalmologista sem enrolação: sintomas que voltam sempre e não melhoram sozinhos, necessidade constante de pingar colírio para aguentar o dia, visão embaçada que atrapalha ler ou dirigir, dor de verdade, sensibilidade forte à luz ou vermelhidão que não cede. O olho seco tratado tarde e de forma grave pode chegar a machucar a córnea, então não é caso de empurrar com a barriga.
Julho, aliás, é o mês da campanha Julho Turquesa, criada justamente para chamar atenção para a doença do olho seco. Coincide com o pico da baixa umidade no Brasil, e não é por acaso. Se os seus olhos vêm pedindo socorro, é um bom empurrão para marcar aquela consulta que você vem adiando.
Fontes consultadas
- UNA-SUS / Secretaria de Saúde do DF — Síndrome do Olho Seco aumenta em 20% a procura por atendimento
- Arquivos Brasileiros de Oftalmologia — Prevalence and risk factors for dry eye disease: the São Paulo dry eye study
- INMET — Área com baixa umidade no Brasil aumenta e afeta 14 estados
- Agência Brasil — Julho Turquesa conscientiza população sobre a doença do olho seco
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou profissional de saúde. Se você tem dúvidas sobre sua saúde, consulte um especialista.
Caio Correa — Pesquiso e escrevo sobre saúde do dia a dia desde que uma pedra no rim me obrigou a entender o próprio corpo. Não sou médico: todo artigo aqui parte de fontes oficiais. Conheça o Saúde Cotidiana.