Os sinais de infarto são os sintomas mais pesquisados no Brasil, com quase um milhão de buscas no último ano, segundo dados do Google. Não é à toa. As doenças cardiovasculares mataram mais de 400 mil pessoas no país em 2022, o equivalente a 46 mortes por hora, de acordo com dados do DATASUS. E grande parte dessas mortes poderiam ter sido evitadas se os sinais tivessem sido reconhecidos a tempo.

O problema é que o infarto raramente avisa da forma que a gente aprende nos filmes. Aquele homem que cai agarrando o peito existe, claro. Mas há outras apresentações que passam despercebidas, especialmente em mulheres, jovens e pessoas que já convivem com dores crônicas. Saber distinguir um sintoma comum de um sinal de alerta pode fazer toda a diferença.
O que acontece no corpo durante um infarto
O infarto agudo do miocárdio, nome técnico do que chamamos de infarto, ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do músculo cardíaco é interrompido ou reduzido de forma grave. Isso acontece porque uma placa de gordura acumulada dentro de uma artéria coronária se rompe, formando um coágulo que bloqueia a passagem do sangue.
Sem sangue, o músculo começa a morrer. E quanto mais tempo passa sem atendimento, maior o dano permanente ao coração. Por isso existe aquela frase na cardiologia: “tempo é músculo”. Cada minuto conta.
A formação dessas placas é um processo lento, silencioso e que começa décadas antes do evento agudo. Fatores como pressão alta, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade aceleram esse processo. Um artigo publicado na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia em 2023 aponta aumento expressivo nas internações por infarto em pessoas com menos de 40 anos no Brasil, o que a literatura associa ao estilo de vida moderno, incluindo o consumo excessivo de ultraprocessados e estresse crônico.
Os sinais de infarto que todo mundo conhece, e os que quase ninguém percebe
A dor ou pressão no peito é o sinal mais clássico. Costuma ser descrita como um aperto, um peso, uma queimação ou uma sensação de que algo está esmagando o tórax. Pode irradiar para o braço esquerdo, a mandíbula, o pescoço ou as costas. Em muitos casos vem acompanhada de suor frio, falta de ar e tontura.
Mas existe um conjunto de sinais que costuma aparecer de forma mais discreta, e que leva muita gente a achar que está com uma crise de ansiedade, uma indigestão ou simplesmente cansaço excessivo. São eles:
- Dor ou desconforto no estômago, parecendo azia persistente
- Náusea ou vômito sem causa aparente
- Cansaço extremo, mesmo sem ter se esforçado
- Falta de ar ao fazer coisas simples, como subir escada ou caminhar devagar
- Palpitações ou sensação de coração acelerado
- Dor ou formigamento no braço direito, mandíbula ou costas
- Sensação de mal-estar difuso, como se algo estivesse errado sem conseguir explicar
Nenhum desses sinais isolados confirma um infarto. Mas quando aparecem juntos, ou quando persistem sem explicação, merecem atenção imediata. A dificuldade está em que boa parte dessas queixas se parece muito com problemas gástricos, refluxo, síndrome do pânico ou fadiga comum. Isso atrasa o diagnóstico e piora o prognóstico.
Por que os sinais de infarto são diferentes em mulheres
Essa diferença é clínica e bem documentada. Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicado em 2025, afirma que as doenças cardiometabólicas em mulheres são sistematicamente subdiagnosticadas e subtratadas no Brasil. O resultado prático disso é grave: mulheres têm risco de óbito cerca de 50% maior que homens quando sofrem um infarto, segundo dados da SBC.
Enquanto o homem tende a sentir a dor clássica no peito com irradiação para o braço, a mulher frequentemente apresenta um quadro mais difuso. A falta de ar intensa, a dor nas costas, a náusea e o cansaço devastador costumam ser os protagonistas. Muitas mulheres relatam ter ido ao pronto-socorro horas antes do infarto com essas queixas e recebido alta com diagnóstico de gastrite ou ansiedade.
Outro fator relevante: nas mulheres, o infarto silencioso, aquele que ocorre sem dor no peito perceptível, é mais comum do que nos homens. A pessoa pode nem saber que teve um evento cardíaco e só descobrir meses depois num eletrocardiograma de rotina.
Isso não significa que homens estão livres de apresentações atípicas. Mas a diferença é suficientemente marcante para que qualquer mulher com fatores de risco cardiovascular preste atenção redobrada a sintomas que parecem banais.
Situação real: quando a dor de estômago era o coração
Uma situação que os cardiologistas relatam com frequência é a de pacientes que chegam ao pronto-socorro com dor epigástrica, aquela sensação de queimação no alto do abdômen, sem nenhuma dor no peito. Tomam antiácido, ficam um pouco melhor, vão embora. Horas depois retornam em parada cardíaca.
Isso acontece porque a parede inferior do coração, quando sofre isquemia, pode provocar dor referida na região do estômago. O nervo frênico, que passa perto do diafragma, transmite o sinal doloroso de uma forma que o cérebro interpreta como dor abdominal.
Não estamos dizendo que toda azia é infarto. Longe disso. Mas quando a dor no estômago vem acompanhada de suor, mal-estar, falta de ar ou sensação de que algo está muito errado, o caminho é o pronto-socorro, não a farmácia.
Quem tem mais risco e por que isso importa
Alguns fatores aumentam consideravelmente a chance de um evento cardíaco. Hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade abdominal e histórico familiar de doenças cardiovasculares estão no topo da lista. Segundo o Ministério da Saúde, a prevalência de hipertensão entre adultos brasileiros chegou a 29,7% em 2024, de acordo com os dados do Vigitel.
O sedentarismo e o estresse crônico também entram nessa conta. O cortisol elevado de forma persistente prejudica as paredes dos vasos sanguíneos e favorece o acúmulo de placas. Da mesma forma, a gordura no fígado, que hoje afeta uma parcela significativa da população brasileira, está associada a maior risco cardiovascular mesmo em pessoas com peso normal.
Ter um ou mais desses fatores de risco não significa que o infarto é inevitável. Mas significa que os sinais de alerta merecem ser levados mais a sério, e que o acompanhamento médico regular faz toda a diferença na prevenção.
O que fazer nos primeiros minutos
Se você ou alguém ao seu lado apresentar sinais compatíveis com infarto, a orientação é ligar imediatamente para o SAMU (192) ou ir ao pronto-socorro mais próximo. Não dirija sozinho. Não espere para ver se passa. Não tome remédio por conta própria.
O tratamento do infarto, quando feito rapidamente, pode desobstruir a artéria e limitar de forma significativa o dano ao músculo cardíaco. Quanto mais cedo o atendimento, maiores as chances de recuperação sem sequelas graves. Esse é um dos contextos em que chamar ajuda rápido literalmente salva vidas.
Vale lembrar também que mastigar um comprimido de AAS (ácido acetilsalicílico) é uma recomendação que circula bastante na internet como “primeiros socorros”. Mas essa conduta só deve ser tomada se houver orientação médica prévia, pois pode ter contraindicações dependendo do quadro clínico de cada pessoa.
Quando procurar um médico com urgência
Alguns sinais exigem atenção imediata, sem esperar para ver se melhoram:
- Dor ou pressão no peito que dura mais de alguns minutos ou que vai e volta
- Dor no peito que irradia para o braço, pescoço, mandíbula ou costas
- Falta de ar súbita, com ou sem dor no peito
- Suor frio intenso acompanhado de mal-estar
- Tontura ou desmaio sem causa aparente
- Sensação forte de que algo está muito errado, mesmo sem conseguir nomear o sintoma
Fora do contexto de urgência, vale marcar consulta com cardiologista ou clínico geral se você tiver fatores de risco e nunca tiver feito uma avaliação cardiovascular completa, se apresentar cansaço desproporcional ao esforço, ou se notar que sua pressão está frequentemente elevada. Prevenir é sempre mais simples do que tratar um evento já instalado.
Para quem quer entender melhor como o estilo de vida afeta o coração a longo prazo, vale também ler sobre os efeitos do estresse crônico no organismo e sobre por que cuidar da saúde metabólica, inclusive da gordura no fígado, faz parte de qualquer estratégia séria de prevenção cardiovascular.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou profissional de saúde. Se você tem dúvidas sobre sua saúde cardiovascular ou acredita estar apresentando sinais de infarto, procure atendimento médico imediatamente.